Uma análise abrangente de milhares de tumores revela que os genes herdados desempenham um papel crucial no desenvolvimento do câncer de mama desde os estágios iniciais. Em uma ressonância magnética colorida, um tumor maligno na mama de uma mulher aparece destacado, sugerindo que células cancerígenas podem fornecer sinais precoces sobre a gravidade potencial da doença.
De acordo com um estudo recente publicado na revista Science e divulgado pela National Geographic durante o Outubro Rosa, mês de conscientização sobre o câncer de mama, genes herdados de uma mulher podem indicar o tipo de câncer de mama que ela pode desenvolver.
Em particular, a pesquisa foca nos epítopos, proteínas visíveis que cobrem a superfície das células, inclusive as cancerosas, funcionando como sinais que identificam a célula para o sistema imunológico. Essas proteínas atuam como um “letreiro” que atrai a atenção das células de defesa.
A pesquisa analisou dados de dezenas de milhares de pacientes e concluiu que cânceres com epítopos mais evidentes, que atraem a vigilância do sistema imunológico, têm menor chance de progredir para formas invasivas. Entretanto, se essas células escaparem da detecção, há uma probabilidade maior de se tornarem metastáticas.
Estes achados indicam que o risco mortal de um tumor é estabelecido desde cedo. A autora principal do estudo, Christina Curtis, especialista em câncer e cientista de dados da Universidade de Stanford, sugere que essa descoberta poderá, no futuro, ajudar a identificar mulheres com maior risco de desenvolver câncer agressivo, permitindo tratamentos e monitoramento mais específicos e eficazes.
Como o sistema imunológico detecta o câncer
Embora mutações genéticas que provocam o crescimento de células cancerosas não sejam incomuns, o sistema imunológico geralmente consegue identificá-las e eliminá-las. Epítopos, formados por proteínas, funcionam como uma identificação molecular que o sistema imunológico utiliza para monitorar as células do corpo. Esses epítopos, influenciados pela genética, ajudam a determinar a resposta imunológica.
O estudo de Curtis revela que, antes mesmo da formação de um tumor identificável, as células cancerosas apresentam epítopos que indicam seu potencial maligno.
Células cancerosas com predisposição a serem agressivas
Durante muito tempo, acreditava-se que o câncer resultava de uma combinação aleatória de fatores ao longo da vida, com células saudáveis eventualmente se transformando em cancerígenas. No entanto, em 2015, Curtis descobriu que a genética pode influenciar os epítopos das células cancerosas. Sua pesquisa mostrou que tumores colorretais mais agressivos possuem características moleculares específicas, mesmo em estágios iniciais.
Essas variações moleculares e genéticas nas células tumorais podem explicar porque certos tratamentos, como a terapia hormonal, não são sempre eficazes, pois algumas células cancerígenas sobrevivem e podem evoluir para formas mais agressivas e resistentes.
Previsões para o câncer de mama
Desde a década de 1980, a importância dos genes BRCA1 e BRCA2 é amplamente reconhecida na compreensão do risco de câncer. No entanto, muitas mulheres com risco elevado não possuem essas variantes, levando os cientistas a investigar outros fatores.
Curtis e a pesquisadora Kathleen Houlahan examinaram os dados de mais de 6 mil tumores de mama para entender como variações imunológicas herdadas podem influenciar o desenvolvimento da doença. Descobriram que uma “carga de epítopos da linha germinativa” elevada pode ajudar a detectar e eliminar precocemente células cancerígenas, mas, se as células escaparem, o câncer pode se tornar mais agressivo e invasivo.
O futuro da prevenção do câncer de mama
Esses achados podem auxiliar na divisão de mulheres em grupos de maior e menor risco, o que seria essencial para estratégias de prevenção. Mulheres com menor capacidade de detectar células cancerígenas chamativas poderiam receber exames preventivos com maior frequência.
Curtis destaca que os resultados são relevantes não só para entender o desenvolvimento do câncer, mas também para criar tratamentos mais personalizados e eficazes. Ela prevê que, no futuro, testes genéticos possam ajudar a identificar pessoas com maior risco de desenvolver formas agressivas da doença, permitindo um acompanhamento mais direcionado e intervenções antecipadas.

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